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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Pensando e repensando a educação...[2]

(Escrito por JEFFERSON CASTRO)

Eis que tentarei, aqui, escrever de maneira a estabelecer um diálogo e elucidar meus pensamentos acerca da temática abordada pelo amigo Rodrigo Mallmann no texto "Pensando e repensando a educação...".

Para se falar sobre o assunto educação, é preciso que tomemos consciência sobre o que é educar: Muitas fontes tratam o ato de educar como processo de desenvolvimento moral, intelectual e físico ou, ainda, abordam a questão da promoção/desenvolvimento de boas maneiras.
Não entendo a educação como processo que se dá de fora para dentro (apreensão da realidade exterior) e muito menos aceito a idéia de que alguém eduque outra pessoa (e isso não significa a não-necessidade da existência de professores, mas, sim, a reconfiguração de sua função). Compreendo a educação, em concordância com autores/pensadores como Paulo Freire,  como um processo pessoal de busca que precisa ser orientado/facilitado/mediado por alguém (mas é processo pessoal). Com base nisso, se eu pudesse resumir (embora os resumos sejam, em geral, limitadores demais) o processo de educar-se, me valeria de dessa expressão: "aperfeirçoar-se" (tornar-se melhor, busca por ser sempre mais, perceber-se inacabado e, principalmente, perceber-se responsável pela construção de sua história).

Para não me estender demais nesse ponto, citarei um trecho das Primeiras Palavras, parte inicial do livro Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, que, para bom entendedor, fala muito sobre educação:
“[…]Na verdade, seria incompreensível se a consciência de minha presença no mundo não significasse já a impossibilidade de minha ausência na construção da própria presença. Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isso não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável.”
A invocação da responsabilidade ética de cada educando precisa ser a essência da educação.
É evidente que todo sistema educacional precisa estar (e está) diretamente vinculado a projetos de mundo (ou de comunidades, cidades, estados e países). Ter finalidades e objetivos são requisitos básicos para qualquer processo educacional. O grande desafio está em saber quais são os objetivos que estão sendo buscados em cada sistema. Sigamos adiante...

O sistema educacional brasileiro, por vivermos dentro de uma lógica mundana capitalista e empilhados numa sociedade de classes (vejo duas: a classe dominante e a classe dominada), traz como fiinalidade principal do seu processo a PREPARAÇÃO DO CIDADÃO PARA O MERCADO DE TRABALHO!
Vamos ver isso nos escritos de nosso país?

"TÍTULO II: Art.2o. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho." (Lei 9.394/96 - Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional)
Desde já adianto que sonho com um mundo bastante diferente, mas compreendo as dificuldades para se chegar lá. Não sou contra o trabalho, mas, sim, contra as proporções grotescas que o trabalho tomou nas sociedades de hoje (ver texto "Escravos em pleno Séc. XXI...!?"). O grande problema está no fato de termos, no Brasil, uma educação que parece ter se engessado e esquecido dos seus outros compromissos com a sociedade, quais sejam: desenvolvimento pleno do educando e preparo para exercício da cidadania. As aulas, hoje em dia, passaram a ser um emaranhado de saberes desconexos e sem qualquer sentido para os alunos, em muito porque são saberes necessários para serem aplicados junto com técnicas e modos de fazer no [possível] trabalho posterior... Assim, a geometria pode ser importante para quem for trabalhar com arquitetura (e torce-se sempre para haja um futuro arquiteto na turma)! A Educação Física "precisa" abordar os esportes: e toma-lhe bola para a galera, sem qualquer problematização social possível do esporte. E os sentidos ficam prejudicados... E os alunos ficam perdidos!

Puxando Paulo Freire novamente para essa conversa, lembro que ele afirma que os educadores precisam tomar uma decisão diante de sua tarefa (e tendo compreendido sua responsabilidade ética enquanto profissional): educar para libertar (educar para a reflexão) ou educar para a manutenção do modelo vigente (adestrar). Ele ainda afirma que educar, no único sentido em que julga aceitável, implica subverter a ordem classista atual, ampliando a margem de poder das classes menos favorecidas e igualando as oportunidades de comando.

O texto de Rodrigo Mallmann em muitos momentos permite aproximações com as visões que busquei deixar expressas aqui nesse pequeno trecho. É fundamental que busquemos uma educação que provoque a reflexão, que permita aos educandos o seu desenvolvimento intelectual, físico e artístico e que permita que as pessoas sejam dinâmicas... Os métodos, realmente, estão muito atrasados e, em geral, a escola e seus professores se tornaram grandes inimigos dos alunos. O aprender virou obrigatoriedade e já não é mais compreendido como parte daquele compromisso ético de "sermos sempre mais". O mundo gira em torno do trabalho e, para trabalhar, há que se estudar muito muito muito!!

A educação, portanto, precisa ser questionadora de toda essa lógica de mundo na qual estamos inseridos e da qual fazemos parte. Não podemos simplesmente aceitar o sistema como ele é: faz-se mister problematizar, principalmente quando [todos] percebemos que a situação nos agrada por completo... Persigamos, mesmo, o "por que[?]" das coisas, superando a simples satisfação com o "porque sim[!]", e daqui partiremos para processos nos quais a reflexão crítica da realidade (que é constructo histórico-social) assuma o lugar da mera transmissão de conteúdos e técnicas.

A meu ver, a mudança da sociedade e da educação dependem, em muito, do despertar para a compreensão absoluta de que cada ser humano é parte fundamental do todo e do entendimento extremamente necessário da sua responsabilidade ética diante da construção da sua história. Isso tudo implica, obrigatoriamente, a libertação do homem-objeto para sua transformação em homem-sujeito, dono de seu caminho e profundo conhecedor de si e da sociedade que o cerca. Fala-se aqui, de educação para a liberdade e não de adestramento para um mercado de produção e consumo. Fala-se, em suma, de uma esperança gigantesca de que os sonhos e as utopias possam ser sempre perseguidos num mundo no qual o trabalho seja uma forma de se viver (e não para se sobreviver) e, ainda, onde a felicidade, mais que o dinheiro, seja o bem mais precioso.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Escravos em pleno Séc. XXI... !?

Eis a pergunta que tem me causado inquietação extrema nos últimos tempos...

As discussões acerca desse assunto sempre geram milhares e milhares de caras tortas, beiços retorcidos, testas franzidas e muita, mas muita concordância.
É impressionante como as pessoas conseguem perceber, numa conversa, o quão alienadas parecem estar. Contudo, o que me impressiona de maneira mais impactante é a incapacidade de sentar, parar e refletir sobre a possibilidade de mudança. Não é que as pessoas gostem de se verem reduzidas a peças de uma engrenagem gigante que nunca para. O problema reside nas imposições sociais, que são culturais/ideológicas e, por tal, constituem "verdades".

Vamos ver em que ponto escorregamos nas nossas crenças?

O que pensar de uma pessoa com seus 20-30 anos que não trabalha e nem estuda?
O que pensar de uma pessoa com seus 20-30 anos que apenas estuda e não trabalha?
O que pensar de uma pessoa com seus 20-30 anos que trabalha e que estuda?

De imediato, temos uma sutil tendência de ter maior aceitação (aceitação é uma boa expressão para essa idéia) pela opção daquele ser que é maior de 20 anos, trabalha e estuda, né? Os outros dois, por vezes, são encarados como possíveis jovens que não têm emprego simplesmente por que não procuraram ou, ainda, por outros motivos incontáveis que nos levam a crer que são possíveis vagabundos.

Na nossa sociedade, o que muito valorizamos acaba sendo uma possível independência financeira... Os seres mais aceitos em nosso meio são aqueles que têm dinheiro, que são capazes de consumir e, em suma, de fazer a engrenagem seguir rodando. E para isso, temos de trabalhar, trabalhar e trabalhar! Mas algo diferente acontecia nas sociedades antigas, que viviam sob outros regimes políticos e econômicos: todos trabalhavam para a comunidade, viviam em culturas de subsistência, trabalhavam para comer e seus momentos de lazer eram os momentos de lazer de toda a comunidade (festas, rituais, etc.). Havia divisão do trabalho: Uns caçavam, outros preparavam a caça, as mulheres tinham o papel sempre fundamental de educar e criar os futuros seres daquela comunidade. Tudo isso sem a menor (e ridícula) idéia de valoração diferente para trabalhos diferentes: cada um era fundamental para a existência da comunidade!!

Puxando a história para nossos dias e para nossas "mega-comunidades ultra desenvolvidas", tentarei abordar o que me intriga nesse papo todo.

Para vivermos nesse mundo é fundamental que tenhamos dinheiro para consumir. Para termos dinheiro, é imprescindível que gastemos alguns anos de nossas vidas presos em escolas e universidades na tentativa de ser "alguém" (e isso já é absurdo, afinal: Eu sou desde que nascí!). Passados os anos de preparação para o mecado de trabalho, chegamos no momento de trabalhar, de fazer a grande engrenagem girar. Trabalhamos, recebemos uma ínfima parte do dinheiro relacionado ao que produzimos. Em resumo, vendemos nossa força de trabalho, nosso tempo de vida,  para podermos consumir a comida que nos mantém e as coisas das quais não necessitamos tanto assim (mas precisamos possuir para sermos aceitos na "brilhante sociedade").

E seguimos nós trabalhando e trabalhando... E eis que chegamos ao cúmulo da imbecilidade: Nossos momentos de lazer, que [HOJE] nada mais são do que momentos de NÃO-TRABALHO, acabam sendo momentos de descanso da mente e do corpo para uma nova jornada de mais e mais e mais TRABALHO! Isso quando não acabamos forçados a vender os momentos de lazer e descanso para obter mais e mais dinheiro...

E nesse circo todo, [sobre]vivemos para trabalhar e ganhar dinheiro. E o que tem mais valor é alcançar o máximo de riqueza possível para que se possa gozar de períodos um pouco mais longos de VIDA com viagens, férias e descanso... E nos tornamos seres individualistas, essenciais apenas a nós mesmos. Perdemos muito de nosso sentido comunitário: jogamos o jogo uns contra os outros, afinal os espaços são poucos, e não mais uns com os outros!! Perdemos de fato muito da nossa capacidade de aproveitar realmente nosso momento de LAZER. Comprar é o que nos deixa felizes e satisfeitos...
O que me impressiona é que todos percebem esse marasmo, essa escravidão provocada pelo sistema, mas poucos são capazes de sentar, parar e refletir sobre a possibilidade de mudança.

Eis que cá estamos nós: ESCRAVOS DO DINHEIRO E TOMANDO CHIBATADAS MIL DE NOSSA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA QUE NOS AFIRMA, A TODO INSTANTE, QUE ESSA NÃO É A NOSSA VIDA!! Ainda que se receba alguma remuneração pelo trabalho, creio que nada paga o desperdício de nossa vida!


Os caras, aqueles, que não trabalham, talvez ainda não sejam escravos dessa loucura toda. Talvez estejam um passo à nossa frente dependendo do ponto do qual analisamos toda a situação...

E pra ti: ACABOU A ESCRAVIDÃO??

Espero comentários...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As relações e o amor...

(por Jefferson Castro)
Antes de mais nada, preciso deixar claro, aqui, que não sei ser meio EU.
Sou bastante intenso e acredito muito nas pessoas...

Minha maior crença se funda no desejo de ser sempre mais.
Minhas relações, quaisquer que sejam, se baseiam quase que puramente em amor.

Sigo uma lógica bastante simples que tentarei deixar expressa por aqui (não que espere que alguém leia e siga ou diga amém, muito embora achasse isso adequado):
Fico realmente FELIZ DEMAIS quando vejo que alguém faz o seu melhor por mim: pode ser para me auxiliar nos estudos, para se fazer entender em qualquer explicação, quando me alerta sobre algo, quando escuta com atenção ou, ainda, simplesmente quando deixa de fazer o que estava fazendo para dizer um OLÁ, BOM DIA, BOA TARDE, BOA NOITE, EAÍ, FALAÊ, etc.!

Sei que as pessoas são diferentes umas das outras, mas também sei que TODAS, no seu íntimo, desejam ser bem tratadas, receberem sua merecida atenção. Todas querem RESPEITO, SINCERIDADE, CARINHO, AMIZADE, LIBERDADE e AMOR.

Em suma, as pessoas desejam relações que as permitam SER SEMPRE MAIS e, relações que as permitam ser mais devem ser relações VERDADEIRAS.
Para mim, essa gana por SER MAIS precisa ser o objetivo maior dos seres humanos e, como ser de relações, o ser humano precisa assumir o COMPROMISSO por querer SER MAIS (e claro, permitir que os outros sejam, também, SEMPRE MAIS)!

É por tal lógica que não consigo compreender as relações sem AMOR. Não falo do amor romântico como o de um casal de apaixonados (que por romântico agrega outros sentimentos): falo de um amor prático, essencial ao dia-a-dia, fundado sobre RESPEITO, SINCERIDADE, COMPREENSÃO e LIBERDADE. Amor esse que, muitas vezes, falta até aos apaixonados mencionados anteriormente... Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros (senão o maior), já dizia que "quem não ama não compreende o próximo, não o respeita"(1979, p. 29). Portanto, como ter uma relação verdadeira sem amor? EU, particularmente, acho difícil!

Alguns me criticam, falam que tento ser Buda ou Jesus Cristo (por sinal, o que tem de errado em tentar ser um desses?). De mim, o que flui sempre é amor!

É preciso que fique claro, aqui, que reconhecer o inacabamento (a imperfeição) do homem não pode significar a desculpa pronta que fica à espera de qualquer de nossas falhas. Reconhecer esse inacabamento só pode significar, justamente, a necessidade de desenvolvimento humano em todos os aspectos.

O que precisa ficar, disso tudo, é que SER LEGAL COM AS PESSOAS É, SIM, UMA ATITUDE SEMPRE BACANA! Ame, portanto...
Entretanto, não pretendo ser pregado numa cruz como um outro cara que dizia algo parecido.
....

E, de mais a mais, "Amém", ao final das orações, não pode ser algo diferente do que 'alguém' nos dizendo AMEM!

Aos amigos, estaremos sempre juntos para o que der e vier.
Em qualquer lugar, a qualquer hora!

-------
Aos educadores, indico:
  • FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. [Tradução de Moacir Gadotti e Lilian Lopes Martin]. – Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 1979. Coleção Educação e Comunicação vol. I.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Necessidades Paradoxais

Existem coisas que parecem paradoxais em nosso mundo.
Mais do que isso, existem muitas coisas que parecem impossíveis de serem alcançadas aos olhos da maioria. Distantes, digo eu!

Talvez por que eu seja um sonhador ou, ainda,  por que eu compreenda a utopia/o sonho como o NORTE da minha bússola. E ressalto que sem um NORTE, ninguém vai a lugar algum!

Utilizando uma frase profunda de nosso supreendente Presidente molusco digo que "nunca, antes, na história desse país" o povo pensou tanto em necessidade de mudança. A bem da verdade, nunca, antes, na história de qualquer lugar que seja se pensou tanto em necessidades de mudança... E o engraçado (na real nem tão engraçado assim) é que todo mundo tem uma facilidade incrível para identificar os problemas. Ouso falar que todo mundo tem a incrível facilidade para identificar focos do problema, mas não conseguem enxergar o problema - como pessoas vendadas, em quarto escuro, tateando, no lugar, um elefante: pelo tato, sentem a pele rugosa do animal, mas nenhum deles sabe dizer do que se trata exatamente pois conhecem apenas uma parte.

"O problema é a educação", dizem alguns. - CORRETO!
"O problema é a política", outros. - CORRETO!
"O problema é o dinheiro", arriscam aqueles da esquerda fiel. - CORRETO!

E se eu dissesse que o problema está em nós? [eu seria excomungado da igreja católica, mesmo sem a ela pertencer]...

Não é querer parecer entendido, assim como não pretendo me fazer parecer hiper extremista.
Julgo ser a mais pura realidade... e explico.

Aqueles que dizem que o problema do mundo está na educação, em linhas gerais, não estão de todo errado. O grande problema é que, na grande maioria dos casos, esses são os que tem a visão mais errônea do que seria educação: são aqueles que entregaram/entregam por completo a função da educação à escola, abdicando de sua função de pai/mãe (muito embora a escola também esteja devendo muito, principalmente no modelo de educação que se trabalha); são os que reclamam do professor quando o filho não recebe tarefas por escrito para realizar em casa; e, ainda, são aqueles que não percebem a educação como processo gradativo e contínuo de identificação, reflexão, ação/intervenção. Assim, os que evidenciam esse lado da moeda (problema na educação) são os que menos dão força para que a educação realmente mude. PARADOXAL, né?

Aos que afirmam que o problema é a política, não há muito o que falar. Apenas peço que não recriminem a política em si: repudiem, sim, a politicagem, que é outra coisa. E, ainda, esses que reclamam da política em geral são aqueles que pouco valor dão às eleições diretas "porque, afinal, nunca muda nada" ou, ainda, afirmam que "Meu voto é apenas um". Política, para mim, é justamente a capacidade que um homem tem de ter um sonho e saber tomar as decisões corretas para ir atrás desse sonho. Ser político é ter convicção e coragem para ir além. E que convicção ou coragem tem quem entrega um voto ou quem dá as costas para decisões das mais simples? PARADOXO...

Aos que reclamam do dinheiro: meu respeito pela coragem de assumir uma guerra gigantesca! Mas, ainda que a corrida maluca por pedaços de papel que têm valor, para alguns, maiores do que as virtudes mais belas do homem, a meu ver, o problema reside em nós. O PARADOXO, aqui, fica por conta de querermos uma sociedade justa, saudável e tranqüila, ao mesmo tempo em que o consumismo e a sociedade do lucro quer concentrar riquezas na mão de poucos.

Na mais inicial das percepções, todos os elementos discutidos e tratados como PROBLEMAS DO MUNDO são, nada mais, nada menos, criações humanas. O problema, portanto, não são esses elementos, mas o trato e o valor que a sociedade atribuiu a eles. Educação tratada de qualquer jeito, é problema! Política tratada de qualquer jeito, é problema. Dinheiro, tratado e valorizado de qualquer jeito, não pode ser coisa boa... A lógica, então, não é ser radical ao extremo e banir essas criações humanas da face da terra. Fugir dos problemas nunca foi solução para nada... Mas e a solução??

A solução reside na compreensão, por parte da sociedade como um todo, de todas essas questões e na luta, em conjunto, para tornar o mundo melhor a seu gosto. A solução está, literalmente, na assunção do respeito às diferenças (EDUCAÇÃO, POLÍTICA, DINHEIRO). A solução está em interiorizar a idéia de EDUCAÇÃO e a idéia de POLÍTICA para assim construir/desenvolver meios para se discutir os valores pretendidos pela sociedade global (DINHEIRO e HONESTIDADE, JUSTIÇA, AMOR, ETC...). Os valiosos pedaços de papel podem circular pelo meio de uma sociedade bacana e centrada, desde que compreendamos que existem outros valores que merecem maior destaque.

Para finalizar, entretanto, diferentemente de contos de fadas, eis que ressurge em minha cabeça mais uma questão PARADOXAL: Isso tudo exige mudança... aquela mesma necessidade de mudança referida no início desse texto. O problema? O ser humano é acomodado...pensa sobre mudança, reflete sobre a necessidade de mudança, mas precisa tomar na cabeça para realmente tentar mudar. Esses PARADOXOS....

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Festeiros e "festeiros"...

Tenho me assustado com certa frequência. Não é nada que aconteça de repente, "no pulo do gato". Meus sustos são calculados, ao menos por mim. Em geral, já os espero. Talvez nem sejam sustos, mas, sim, lapsos de um estarrecimento assombroso.

Saio pouco nas noitadas baladeiras nas quais a juventude se enfia cada vez mais. Se tem coisa que não entendo nesse mundo é justamente a dependência que a juventude tem de "festa". Já, já eu explico o porque das aspas. Ao certo, antes fosse uma dependência de festa, de agito, de grito, de dança, de camaradagem e de socialização. O que vejo, o que percebo (e que, na verdade, torço muito para estar vendo tudo de uma maneira muito distorcida), é uma necessidade quase absurda (para não utilizar a palavra BURRA) de APARECER. Na sua grande maioria, os jovens se embrenham numa batalha estapafúrdia para analisar quem consegue aparecer mais, chamar mais a atenção dos outros, não importando o quão ridículo possa vir a parecer. Até aqui tudo okay, não fossem os meios que utilizam para sua pretensão traduzidos pelo altíssimo nível de consumo de álcool e entorpecentes de toda ordem. ALERTO: a partir desse ponto, a noite pode acabar em diferentes locais.

"E por que fazem isso?" - muitos se perguntam.

Meu estarrecimento se dá quando esses "festeiros" respondem tal questionamento: "porque é legal"; "pra ficar locão"; "porque a moral é me soltar mais". Meu medo, meus sustos calculados, meu estarrecimento é justamente essa prática de quase banalização da insanidade. Para alguns, a grande sacada da noite está em fazer de tudo e não se lembrar de nada (ou quase nada) no dia seguinte. E, como são que sou, me pergunto: PARA QUÊ? O legal da vida não é ter experiências vividas que poderão ser contadas aos quatro ventos? Para mim, ao menos, sim. Acredito, mesmo, que valha mais contar as experiências,  sabê-las, até mesmo aquelas menos boas (nunca ruins). É mais humano. É mais sadio. É mais interessante. É mais honroso!

Nada contra aqueles que pensam e fazem diferente. Falo de meu estarrecimento, apenas! Mas cabe uma pergunta básica: vais falar o que para os outros se tu não te lembras de nada? Viverão dependentes da boa-vontade dos amigos de contarem (e, possivelmente, inventarem) suas aventuras? GAME OVER, man!

Me surpreendo com alguns desses que ousam me perguntar se sou feliz, como  se fossem doutrinados por uma religião que prega a felicidade como característica dos dependentes de alucinógenos.  Não é bem o que vejo... Prefiro me manter são, esperto, tranquilo, limpo, livre, alerta, gravando todos os momentos da vida e celebrando-os. Vivo todos os dias sem precisar de um período longo de recuperação que,para os religiosos daquela seita "vigorosa" tem o nome sagrado de RESSACA! Porque, para mim, festas são celebrações e, como celebrações, merecem que sejam recordadas. Para as festas,como festeiro que sou, meu único ópio é a alegria!

Viva a vida e não viva em vão.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ser educador...

Há tempos tenho escutado as mesmas perguntas. Para ser mais exato, desde que tomei consciência de que desejava cursar Licenciatura em Educação Física escuto "a pergunta que não quer calar": POR QUE ESCOLHEU SER PROFESSOR??

Esse questionamento bate em mim quase como um tapa no rosto, mesmo porque sei que, na grande maioria dos casos, aqueles que me fazem esta pergunta têm, no seu íntimo, a idéia de que devo ser louco. Por outro lado, esse questionamento me fortalece na medida em que me percebo acreditando nos meus sonhos, embora compreenda as inúmeras dificuldades da profissão. Grosso modo, aqueles que me vêem enquanto louco devem admirar a minha coragem e vontade.

Entretanto, eu mesmo não me julgo a pessoa mais normal do mundo. Acredito, também, que nenhum professor realmente se auto-perceba assim. Isso porque realmente somos loucos, muito embora essa nossa loucura esteja muito mais para uma sede de mudança quase sempre utópica. Quase sempre!

Respondo, portanto, publicamente, àqueles que desde sempre me perguntaram "O que te deu na cabeça para tu escolheres ser professor?". E respondo, talvez, por toda uma classe.

Sou professor porque consigo acreditar no meu sonho. Porque não compreendo minha existência sem deixar algum legado para alguém. Porque não sei ver coisas erradas e simplesmente dar de ombros. Porque vejo um mundo de pernas para o ar (e ele não está simplesmente plantando bananeiras por estripulia ou "sapequisse") do qual todos não gostamos e não pretendo mantê-lo da mesma forma.

Ser professor é, antes de tudo, acreditar na mudança e confiar na sua própria capacidade. É confiar no ser humano como um ser dotado de inteligência (muito embora poucos realmente a utilizem) que pode, quando bem entender, realizar as alterações necessárias em um sistema por ele criado para tornar a vida realmente melhor. Ser professor é conseguir pensar em todos, entender que o mundo não depende só de um, buscar fazer o possível para que cada comunidade se perceba enquanto parte fundamental de um todo maior. Ser professor é tentar, a todo momento e sem desistir, superar as dificuldades e as barreiras que a própria sociedade cria, quase como um peixe que luta contra a correnteza por toda a sua vida.

Sou professor, por tudo isso que cito acima. Sou professor porque sou indignado com um mundo criado para poucos, que seleciona, que exclui, que nega o outro, que atira o diferente para a margem e que é completamente contra a própria vida. Precisamos, desde pequenos, fazer o máximo possível para sermos reconhecidos enquanto senhores/mestres/doutores quando, na verdade, precisaríamos apenas viver de modo feliz uma vida na qual todos fossem reconhecidos enquanto iguais.

Sou professor por reconhecer o forte poder político-transformador que essa tarefa pode ter se bem executada. Educo, sim, para a transformação. Educo, sim, para a liberdade. Educo, sim, para a saúde. Educo, sim, para que meus alunos questionem toda estrutura social que aí está posta e para a qual muitos apenas dizem amém. Não espere que eu eduque para manter modelos.

Aos que sempre me questionaram, essa é a minha resposta. Sem críticas às demais profissões, sem querer aqui dizer que a minha profissão é a mais importante. Apenas, acho bastante válido que todos se deixem tomar por esse pequeno "desabafo" que mostra a mais completa lucidez de um louco que por aí vaga.

"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda."- (Paulo Freire)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A maior dificuldade...

Já não sei o que pensar e, para ser bem mais sincero, JÁ NEM PENSO PARA SABER...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Meu eu comigo mesmo... Teu tu contigo mesmo!!

Estar sozinho, ficar calado.
Até porque, como costumam dizer, falar sozinho é coisa de louco...

Permanecer por tempos imerso e preso nos próprios pensamentos, sem conseguir sequer desviar a atenção para qualquer outra coisa que vá além dos "PROBLEMAS"! Isso não é ruim, não é negativo... Está longe de ser um abandono à vida. Neste caso, é justamente o contrário!

Vivemos numa busca incessante pela satisfação de necessidades. Veja bem... prefiro repetir: SATISFAÇÃO. E satisfazer é saciar, deixar algo completo, pleno, cheio. Quando saciamos uma ou mais de nossas necessidades, surgem outras, diferentes e novas necessidades que exigem o esforço pessoal para a sua satisfação.

Amar é uma necessidade sim (assim como ser amado). Ter amigos, também (assim como ser amigo). Ambas tão fundamentais quanto as necessidades mais básicas de nossas vidas: respirar, comer, defecar (aos que me conhecem bem, prefiro CAGAR...Sem frescura!), urinar (do mesmo modo que CAGO, EU MIJO!), dormir...

Todas as necessidades listadas acima (e todas aquelas que tu pensastes aí) - com exceção das nossas necessidades biológicas/fisiológicas -, ao que parecem de imediato, são necessidades que parecem transitar entre duas pessoas [em um relacionamento qualquer]. AMAR E SER AMADO. RESPEITAR E SER RESPEITADO. TER AMIGOS E SER AMIGO. Até aí, tudo okay...

Prefiro deixar aqui uma pergunta para evitar ferir a proposta mesma deste texto.

Se para partirmos para outras necessidades devemos primeiro satisfazer necessidades "anteriores", o que seria mais anterior do que buscarmos satisfazer as necessidades que temos conosco mesmos?

E disso fica:
Para amarmos alguém e recebermos esse amor de volta, devemos ter AMOR PRÓPRIO primeiramente. Para respeitarmos alguém e podermos ser respeitados, devemos nos respeitar antes de tudo. Para termos amigos, exige-se que sejamos amigos das pessoas e, antes de tudo, que nos suportemos por si (literalmente, que sejamos amigos de nós mesmos).


De nada vale ir adiante sem ter saciado as tuas necessidades mais essenciais.
Seguir a vida de qualquer jeito é desrespeitar-se, enganar-se (e, muito provavelmente, estarás desrespeitando alguém, enganando alguém).

Ama-te, suporta-te, gosta-te, respeita-te, entenda-te... É só tu e tu mesmo! Não viva na ilusão de que encontrarás no outro aquilo que tu mesmo não possui. Sejas honesto e jogue limpo... CONTIGO MESMO!

De nada vale criar ilusões, falsas ilusões. Sonhar, sim. Mas SONHAR é outra coisa!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Meu erro...


(Escrito por Jefferson Castro)



Talvez tenham chegado os tempos que eu tanto temia...

A racionalidade pessoal se deixou superar pelo sentimentalismo provindo de uma [ir]racionalidade coletiva. Já não se pensa o que se quer... Vivemos tendenciados a acreditar naquilo que muitos acreditam. Sentimos necessidade de ver "nosso pensamento" amparado pelo pensamentos de alguém mais!

O que há de errado nisso? Se "nossos pensamentos" estão de acordo com os pensamentos de alguém mais, isso nos traz o sentido de que não estamos sozinhos no mundo, bem como nos entorpece com a [falsa] ilusão de que "nosso pensamento" é correto. Seria isso mesmo verdade? Talvez nem sempre...

Prefiro acreditar que precisamos nos tornar SUJEITOS de nosso próprio pensamento. Saber o que se quer, saber o que se defende, saber o que se pretende... Assim, digo, SÓ ASSIM, não sinto [EU] a imensa necessidade de escorar MEU PENSAMENTO por sobre os pensamentos dos demais, utilizando as idéias dos outros como muletas que me darão [FALSA, de novo] sustentação. Torno-me, portanto, SUJEITO DE MIM MESMO.

Não afirmo ser esta uma tarefa simples. Eu mesmo tropeço e muito nessa vida, topando com um mundo de bordões que se fazem verdadeiros pelo número grotesco de seguidores que deles se apropriam. É díficil, realmente! Conseguir pensar por si, portanto, acaba sendo tarefa para ousados, incansáveis e persistentes. Ousaria afirmar aqui que pensar por si é tarefa de SONHADORES.

Chegando ao MEU ERRO..., ando temeroso quanto ao "pensamento coletivo", digo, quanto à descaracterização do pensamento. Pensamentos de outros, válidos para outros, sem cara, sem identidade... Pensamentos provindos de outras vidas, de outras realidades, de outras cabeças, de outras pessoas, TALVEZ NUNCA NOS SEJAM REALMENTE ÚTEIS. Pensar parecido, acontece, de fato. Aproveitar os pensamentos dos outros para FUNDAMENTAR, DAR SUPORTE aos nossos próprios pensamentos, é válido...

E segue a pergunta básica: Mas o que há de errado nisso? Talvez nada, para quem pouco se importa com o fato de tentar viver a vida por si, para quem não deseja experimentar realmente o gosto do mundo com seu tempero favorito [como o toque especial do Cheff].
E talvez esteja tudo errado para aqueles que ainda buscam experimentar a vida como gostam, defendendo seus princípios, lutando pela liberdade...

... e quanto ao Meu erro...

...Talvez eu tenha pensado demais. Talvez eu tenha percebido que não vivo com a cabeça dos outros, com os pensamentos dos outros. Talvez eu tenha notado que os pensamentos dos outros (e aquilo que acham ou deixam de achar) não podem "fazer a minha cabeça" e, assim sendo, não compreendí quem estava do meu lado tendenciada pela força da massa de pensamentos que a incomodavam (e a incomodam até agora).

O meu erro foi ter sido amigo quando achava, por mim, que ser amigo era correto. Meu erro foi ter dado atenção a quem precisou de atenção em algum momento. O meu erro foi, simplesmente, TER ME TORNADO DONO DOS MEUS PENSAMENTOS EM UM MUNDO NO QUAL AS PESSOAS TOMAM PARA SI, COMO PRÓPRIO, O QUE É DO COLETIVO.

Se há amor, há confiança. Se há amor, há respeito. Se há amor, independente do que o coletivo fale, faça aquilo que você acredita ser certo e que, em seu íntimo, faz o seu coração vibrar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O papel do professor na lógica construtivista

Datam de muito tempo as discussões acerca de temáticas que se referem diretamente à educação. Essa, enquanto uma das atividades humanas mais antigas, sempre provocou longos momentos de reflexão e constantes questionamentos nos antigos mestres, hoje tratados simplesmente como professores/educadores, sobre assuntos que perpassam o ato pedagógico: existiria uma melhor maneira de ensinar/aprender? Como o educando aprende? Construção, transmissão ou acúmulo de conhecimento?
Os estudos que historicamente balizaram os passos da educação, de modo geral, buscaram criar teorias (e, como conseqüência inevitável, métodos educativos) que explicassem e fundamentassem os questionamentos feitos anteriormente. Criaram-se distintos paradigmas educacionais, frutos diretos da incessante reflexão sobre as teorias anteriormente mencionadas mesclados com um modo de pensar de determinado período, de determinado lugar, de determinada cultura.
Destes tempos quase remotos que retomam lugares nos pensamentos dos estudantes de licenciatura ainda hoje, sobram inúmeros modelos de pensar e de agir que acabam re-significados com a intenção básica de tomar lugar na educação da chamada pós-modernidade. Vale lembrar que, hoje, as informações já não circulam na mesma velocidade de antigamente e, principalmente, que o “mundo globalizado” permite, em maior grau, que a aprendizagem ocorra, também, fora dos muros da escola. Em suma, o mundo mudou. As exigências mudaram. A educação mudou.
Uma das vertentes teóricas da educação mais fortes que constantemente ressurgem nas discussões pedagógicas é a que traz em si a idéia da construção de conhecimentos, sem sombra de dúvidas mais apropriada e racional do que a mera transmissão de saberes. Autores como Piaget, Vigotsky, Paulo Freire e Anísio Teixeira, acabaram contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento e para a manutenção desse ideal educativo. Obviamente, diferentes autores pensam de modos distintos, mas com ideais semelhantes e com vistas em um ponto comum: o desenvolvimento da educação.
No construtivismo de Piaget, por exemplo, que é fundamentado sobre estudos a psicologia infantil, a aprendizagem ocorre por meio de intensa atividade mental (reflexão) do educando sobre o objeto a ser aprendido. Parte-se, nas aulas, das necessidades e anseios dos alunos verificados pelo educador, buscando uma educação em níveis sócio-afetivos, cognitivos e psicomotores. Segundo WERNECK (2006, p. 175), o construtivismo é um termo usado freqüentemente e pode assumir diferentes conceitos, como por exemplo:

- como constituição do saber feita pelo estudioso, pelo cientista, pelo filósofo resultante da reflexão e da pesquisa sistemática que leva a novos conhecimentos. (...) O homem não “descobre” o conhecimento pronto na natureza, mas relaciona os dados dela recebidos constituindo os saberes. (...)
- o sujeito não propriamente “constrói” o saber, somente apropria-se de um conhecimento já estabelecido. O conteúdo é passado pelo ensino, já pronto e definido embora sempre passível de modificações, e cada um vai apreendê-lo de modo semelhante mas não idêntico. (...) Há, como mostra Husserl (1980), uma intersubjetividade entre os que dominam a mesma área do saber que atesta uma identidade na construção do conhecimento.


As pessoas, portanto, aprendem de maneiras distintas. Por mais que o processo de ensino seja semelhante (ou até igual), todo educando aplica ao conhecimento aprendido o seu modo de perceber o objeto e a sua visão de mundo, interferindo de modo subjetivo na sua própria aprendizagem. Contudo, isso não significa dizer que, necessariamente, as pessoas aprendem coisas diferentes, mas sim que elas percebem os objetos de modos distintos e singulares.
Criando uma ponte entre essa discussão e a leitura do capítulo 12 do livro “Jogos em Grupo” de Kamii e DeVries (1991), que trata de modo mais específico da educação infantil, e buscando discutir sobre o papel dos educadores dentro do construtivismo, faz-se importante e pertinente um dos objetivos para a educação infantil definidos pelas autoras que diz: “Com relação aos colegas, gostaríamos que as crianças desenvolvessem sua habilidade de descentrar e coordenar diferentes pontos de vista” (KAMII & DEVRIES, 1991, p. 288). Se as pessoas agem sobre os objetos, aprendem e acabam inserindo, para sua compreensão, aspectos que lhes são próprios (fundamentais para os processos de assimilação e acomodação), acabam apreendendo, aprendendo e re-significando conceitos, construindo o seu conhecimento por meio de uma forma ativa e não apenas recebendo respostas prontas, acabadas, sem sequer entender o processo do qual se originou.
Contudo, é fundamental e competente, que os educadores e os próprios alunos lutem pela autonomia do ser aprendente no processo educativo, com vistas na independência do aluno de seu professor. Isso não significa a inexistência do professor nem sequer o término de sua função, mas configura a posição do educador de uma maneira diferenciada, não mais como aquele que professa a verdade e, sim, como um mediador e incentivador da busca e da pesquisa. Sobre isso WERNECK (2006, p. 178) diz:

À medida que o sujeito atinge o nível de desenvolvimento necessário para a compreensão com a ajuda de elementos externos, o outro, o livro, o professor, a TV, a Internet apropriam-se do novo saber organizando-o a seu modo.

KAMII & DEVRIES (1991), trazem, através da discussão dos jogos em grupo, que os conteúdos a serem trabalhados devem estar de acordo com o nível de conhecimento dos alunos que deverão aprendê-lo. Assim, a adaptação/simplificação de regras (nos jogos) bem como da linguagem e da “lógica” (nos conteúdos diversos) significam, grosso modo, a disponibilização de conteúdos culturais em níveis nos quais as crianças, por si, possam compreender e (re) organizar. O papel do educador, portanto, sofre transformações significativas na medida em que sua função deixa de ser a de reprodutor de verdade com vistas numa homogeneidade das suas turmas. Para o construtivismo, o professor passa a lidar mais com o ponto de interrogação, na intenção de provocar os alunos em sua subjetividade para o avanço no campo dos saberes, do que meramente com o ponto final, na tentativa simples de dar respostas prontas e sem sentido. KAMII & DEVRIES (1991, p. 288) afirmam, de acordo com os objetivos traçados para a educação infantil no mesmo livro, que “precisamos ajudar as crianças a construir regras e a pensar de um modo que elas entendam”. Há que se compreender, entretanto, a necessidade de se terem bem definidos os objetivos que se buscam.
Outro fator que sustenta a idéia construtivista é a noção de se partir da realidade dos alunos, iniciar o processo educativo de acordo com o seu nível de conhecimento. Assim, e somente assim, é possível que o educador perceba o estágio no qual se encontram seus alunos e inicie o processo de planejamento de seus objetivos. Seguindo adiante, é necessário que os conteúdos a serem aprendidos pelos educandos sejam de seu próprio interesse, fator disparador que potencialmente desenvolve um desejo de ação sobre determinado objeto. WERNECK (2006, p. 183) afirma que

O conhecimento resulta da interação do sujeito com o objeto. O desenvolvimento cognitivo ocorre pela assimilação do objeto de conhecimento a estruturas próprias e existentes no sujeito e pela acomodação dessas estruturas ao objeto da assimilação.

O significado da aprendizagem, portanto, passa a ser entendido, fazendo um paralelo entre os textos de Kamii & DeVries e Werneck, como reflexo e/ou resultado das soluções alternativas encontradas para a resolução de determinado problema gerado pelo próprio processo educativo. Assim, o aprender parece um sem fim justificado que a cada novo conhecimento adquirido torna a criar “problemas”/perguntas que merecem a busca pela sua solução. Indo além, WERNECK (2006, p. 188) afirma que “o conteúdo deve ser apresentado como valor, ou seja, como algo que, de algum modo, vá preencher as necessidades do sujeito”. Dessa forma, entrando mais especificamente na área da educação física, é preciso que mostremos o valor da nossa área de conhecimento para os educandos, não restringindo nossas ações pedagógicas à mera prática desportiva, mas englobando sentidos e significados que permitam aos alunos o entendimento da relevância, para a saúde deles, das práticas regulares de exercícios sistematizados. Ainda, em dias em que as relações sociais estão cada vez mais degradadas, é importante que esses mesmos alunos percebam, através de diferentes jogos, a importância da manutenção de valores que permitam a amizade e as trocas interpessoais, também fundamentais para a aprendizagem em qualquer idade.
A tarefa não é simples e, certamente, exige rigor por parte dos educadores. Há que se buscar a compreensão dos elementos levantados neste texto objetivando um maior embasamento teórico que permita o entendimento do processo de aprendizagem. É fato que o construtivismo fornece bases relevantes para o processo educativo de um modo geral e, principalmente, é significativa a contribuição de Kamii & DeVries nas discussões sobre a teoria de Piaget. É fundamental, entretanto, que se perceba que, em se tratando de teoria construtivista, é impossível que se crie uma fórmula pronta de como se dar aulas. Isso segue exatamente na contramão de tudo o que prega o construtivismo, no qual cada caso é um caso e cada pessoa é única e tem direito a autonomia.











REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. KAMII, Constance; DEVRIES, Rheta. Jogos em Grupo na educação infantil: implicações da teoria de Piaget. Tradução: Marina Célia Dias Carrasqueira; São Paulo : Trajetória Cultural, 1991.
2. WERNECK, Vera Rudge. Sobre o processo de construção do conhecimento: O papel do ensino e da pesquisa. Ensaio: aval. Pol. Públ. Educ., Rio de Janeiro, v. 14, n. 51, p. 173 - 196, abr./jun. 2006.
Disponível em: . Acesso em 16/05/2009.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

QUESTÕES PARA REFLEXÃO

1. Quais os critérios de uma avaliação Tecnicista?
2. Quais os critérios de uma avaliação Mediadora?

De acordo com todos os conceitos que viemos tentando construir durante o semestre, na Atividade Acadêmica de Ação Pedagógica e Avaliação, e me valendo de conhecimentos elaborados em um processo de estabelecimento de relações desses conceitos com aprendizagens significativas provenientes das vivências em outras atividades propostas no currículo de minha graduação dentro da UNISINOS, buscarei, aqui, escrever um texto confrontando essas duas questões citadas acima.
Para iniciar, é preciso que entendamos que a educação no mundo é dividida em dois grandes blocos, a saber: um de reprodução de conhecimentos, que visa a manutenção do status quo social (adaptação do indivíduo à sociedade existente) e a não criticidade, com a finalidade da não tentativa de subversão de um sistema cômodo para a classe dominante; e outro de construção de conhecimentos, que visa uma transformação social por compreender a luta de classes existente e desigual. Alguns podem estar se perguntando sobre o que isso tudo tem a ver com as duas questões às quais este texto se refere. Seguimos adiante e vamos à resposta.
O grande choque existente, que coloca essas duas perspectivas de avaliação em estado de contraposição, está intrinsecamente relacionado com os blocos opostos citados no parágrafo anterior. Enquanto a pedagogia Tecnicista traz a idéia de formação do indivíduo competente para o mercado de trabalho, baseando-se na idéia de adequação do indivíduo à sociedade e avaliando o resultado final (ênfase no “produto”), as pedagogias que propõe uma avaliação Mediadora consistem em problematizar a sociedade existente, buscando transformá-la e torná-la mais justa. Nesse sentido, podemos perceber o forte e potente veio político que muitas vezes fica implícito e escondido nas ações pedagógicas, potencializando ideologias.
Partindo de forma mais clara para responder as questões propostas, as duas perspectivas de avaliação se distinguem em objetivos, formas, conteúdos e significados. A compreensão da avaliação, de modo geral, é distinta. Segundo BEHRENS:

“A avaliação na abordagem tecnicista visa ao produto. O sistema de Instrução leva a desencadear processos de avaliação na entrada (pré-teste) e na saída (pós-teste) do sistema. A educação é proposta como em uma fábrica: o aluno entra numa esteira de produção, é processado e resulta num produto. (...) As avaliações reprodutivas levam à exigência de uma forte dose de memória e retenção e, por conseqüência, ocasiona um alto índice de reprovação. A tônica é na informação, na palavra, e não na formação e no espírito crítico.” (2005, p. 51)

O critério fundamental de avaliação na tendência tecnicista fica, de acordo com LIBÂNEO (1984, p. 30), por conta de uma “modificação de desempenho”. Se possível, mais adequado seria se o aluno respondesse aos questionamentos da prova de acordo com as palavras do professor ou como consta no manual (ou livro didático) utilizado nas aulas. Ainda seguindo LIBÂNEO, “o ensino é um processo de condicionamento através do uso de reforçamento das respostas que se quer obter” (1984, p. 31). HOFFMANN (2003), afirma que a avaliação, nesse sentido, tem fins classificatórios, sendo opostos à uma educação de qualidade. Assim, somente “os melhores” (de acordo com uma avaliação que não busca a reflexão e o pensamento lógico) estarão preparados e prontos para ingressarem no mercado de trabalho.
Em contraponto ao que vinha sendo dito neste texto, mudo, a partir de então, o eixo da fala, do entendimento e da lógica que competem às questões relacionadas à avaliação para tratar de uma perspectiva Mediadora, que visa atender às reais necessidades dos alunos enquanto seres imperfeitos, sedentos pelo conhecimento, que precisam estar situados sobre seus avanços no seu processo ensino-aprendizagem.
Na tentativa de se criar alternativas que trouxessem à educação uma garantia de aprendizagem e de avanço nos conhecimentos trabalhados, ampliam-se as concepções da avaliação e o entendimento sobre esse elemento fundamental no processo educativo. Busca-se, então, atribuir um sentido real e um significado real para a avaliação e esta deixa de ser, na perspectiva Mediadora, mera atribuição de uma nota. Assim, pretendo-se alcançar uma educação que transforme o educando em sujeito do seu conhecimento, BECKER apud HOFFMANN (2003, p. 25) diz:

“...quanto mais o educando for objeto dos conhecimentos nele depositados, menos condições terá de emergir como sujeito de consciência crítica, condição esta de sua inserção transformadora no mundo.”

Na avaliação mediadora, o professor deve buscar realizar um acompanhamento sistemático e gradual de cada um dos alunos, provocando-os e os instigando à pesquisa e à busca incessante por novos conceitos que deverão ser re-significados com a mediação do profissional, construindo-se o conhecimento. Dessa forma, HOFFMANN (2003, p. 28) afirma:

“O significado primeiro e essencial da ação avaliativa mediadora é o ‘prestar muita atenção’ na criança, no jovem, eu diria ‘pegar no pé’ desse aluno mesmo, insistindo em conhecê-lo melhor, em entender suas falas, seus argumentos, teimando em conversar com ele em todos os momentos, ouvindo todas as suas perguntas, fazendo-lhe novas e desafiadoras questões, ‘implicantes’, até, na busca de alternativas para uma ação educativa voltada para a autonomia moral e intelectual. Autonomia, que segundo La Taille (1992, p.17), ‘significa ser capaz de se situar consciente e competentemente na rede dos diversos pontos de vista e conflitos presentes numa sociedade’”.

A avaliação mediadora, portanto, não se limita a atribuir uma nota ou um conceito, mas, sim, serve para manter o aluno informado sobre as possíveis aproximações ou quanto aos distanciamentos das suas argumentações em relação ao eixo curricular norteador do processo ensino-aprendizagem. De fato, o trabalho é muito mais complicado, mas professor algum pode se acomodar diante de uma escola que não prime pelas reais aprendizagens dos alunos.

Referências Bibliográficas:

• BEHRENS, Marilda Aparecida. O paradigma Emergente e a prática pedagógica.
Petrópolis, RJ : Vozes, 2005.
• LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da Escola Pública: a Pedagogia Crítico-Social dos Conteúdos. São Paulo -SP : Edições Loyola, 1984.
• HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade. Porto Alegre -RS : Editora Mediação, 2003.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Síntese do texto “Capoeira e Educação Popular”, de Anselmo da Silva Accurso.

Desde os tempos primitivos, o homem está engajado numa constante evolução de suas técnicas e no desenvolvimento de suas culturas variadas, seus costumes, seu crescimento pessoal e de seu grupo. De acordo com o que nos fala Paulo Freire, é fundamental, para o seu crescimento interior, que o homem se perceba enquanto ser inacabado e imperfeito, capaz de adquirir aprendizagens e “somar” (internalizar) valores culturais que o permitam avançar na sua concepção de mundo.
Cada sociedade constrói, em seu meio, a sua história e se desenvolve à sua maneira, através das descobertas e dos domínios de técnicas de trabalho e/ou de organização social. Ainda, os valores culturais aprendidos por integrantes mais velhos da mesma comunidade são internalizados de forma automática pelos membros mais novos, de forma que essa cultura não morre e se recria (ou se renova), desenvolvendo-se e evoluindo. Essa evolução compreendida como auto-descoberta permite que comunidades distintas atinjam, em tempos também diferentes, graus de desenvolvimento mais elevados. Esse fator, de acordo com as mudanças políticas e econômicas ocorridas, acaba por abrir espaço para as dominações de uns povos sobre os outros. O que funcionava dentro de uma economia de subsistência (plantar e colher apenas o necessário para a sobrevivência do grupo), acaba sendo substituído por uma economia embasada nas trocas de produtos na qual o excesso da produção passa a ser moeda de troca e, dessa forma, quanto mais se produz, mais se conquista. Na “necessidade” de aumento da produção, o homem acaba entrando numa corrida incessante de acúmulo de riquezas, o que fortalece o ideal de dominação de um povo sobre o outro, com vistas na necessidade de aumento da mão-de-obra para a maior produção. É nesse processo que os dominados acabam perdendo sua identidade e deixando de “fazer cultura” (p. 129). Seguindo na linguagem do autor,
“Um povo sob o domínio de outro simplesmente deixa de ser sujeito de sua vida, passando a objeto de outros interesses. O povo dominado se desestrutura, já não opina, não entendendo o processo a que foi submetido. Do homem dominado é pervertido o curso de sua história, fazendo-o não compreender o novo mundo a que foi submetido. (...) Sua mutação de sujeito em objeto impede-o de atuar, dando lugar a um ser frustrado, perdendo seu engajamento na construção de sua liberdade. (...) Assume a cultura do dominante e a ideologia da dominação” (p. 129)
Paulo Freire, inúmeras vezes lembrado pelo autor do texto, reafirma o processo de dominação dos europeus (Portugueses e Espanhóis) sobre o povo latino-americano. Fala sobre a possibilidade de usarmos termos como “sociedades-sujeito”, para aquelas agentes de sua própria história (muitas vezes são as dominadoras), e “sociedades-objeto”, para aquelas que sofreram e/ou sofrem com a dominação de outras sociedades e que vivem, por vezes de forma passiva, um processo de adesão de uma ideologia e de uma cultura que não lhes cabe, perdendo suas raízes e sua própria identidade.
De um processo de dominação de uns povos sobre os outros nasceram as escolas, previstas inicialmente para catequizar os subalternos para as regras da dominação, entregando-lhes uma cultura nova, novos valores morais e éticos e etc. As escolas, ainda hoje, costumam repetir os erros adquiridos nos tempos de quando criada, se tornando alienante ao disfarçar/evitar a realidade histórica contundente e espantadora de nosso país, necessária para o entendimento de nossa sociedade como um todo e para o resgate de nossas raízes, de nossa identidade cultural. Accurso, de maneira impecável, diz que o professor de nossa sociedade, de um modo geral, “não se compromete em revelar a história, preferindo a comodidade de ver um mundo de conveniências” (p.133). Toda essa negação à verdade motivada pelo comodismo dos profissionais da área, aliada a uma desvinculação dos conteúdos a serem ensinados com a realidade dos alunos, acaba afetando a educação como um todo de modo bastante prejudicial.
A proposta à qual este texto se refere – Educação Popular -, visa uma transformação na área da educação e, por conseqüência, na sociedade. A Educação Popular se baseia, de forma direta, numa relação próxima entre os aprendizes e os conteúdos a serem aprendidos, ou seja, numa engajada busca da aprendizagem sobre as temáticas que englobam e afetam a sociedade local (o contexto social). Faz-se necessária uma busca incessante pelo entendimento da realidade social para que se torne possível a percepção da importância de mudá-la para melhor. Isso não significa a negação dos saberes acadêmicos, mas sim, o entendimento da interdependência entre o saber formal (científico) e o saber popular.
Para o autor do texto, propositor da capoeira como ferramenta de Educação Popular, esta luta/cultura de resistência muito pode contribuir para que se atinjam patamares de uma educação mais ampla e verdadeira que descubra a realidade para as pessoas e que possibilite a transformação social. Para ele, “é possível relacionar as épocas, desde o colonialismo ao capitalismo, fazendo com que o praticante da capoeira se situe em seu espaço temporal, descobrindo as verdadeiras raízes do povo brasileiro, daqueles que construíram as bases econômicas deste País.” (p. 140).
Ao final, Accurso faz uma breve crítica à transformação da capoeira em um produto que pode ser consumido. De um modo geral, o texto tenta salientar a importância da capoeira como ferramenta educativa para o resgate da identidade cultural de nosso País. Ainda, busca alertar os educadores da atualidade para uma tomada de consciência frente às problemáticas referentes às relações sociais entre as classes: dominantes e dominados. Como agente transformador da sociedade, o professor não pode (e por mais que consiga não o conseguirá ser) ser neutro em suas atitudes. Para finalizar esta síntese, um trecho do autor que convoca os profissionais da educação para uma reflexão profunda e interessante:
“É imprescindível que tanto o professor de sala de aula quanto o trabalhador social façam uma opção chave. Uma alternativa é que sua ação seja para manter a sociedade atual, ou melhor, adestrar o homem para um desempenho de conformismo; outra, é buscar a transformação da sociedade através do homem inconformado. Não existe neutralidade. Aquele que se diz neutro se resigna a objeto da história. Decorrência da primeira alternativa é sua ação entediadora na sala de aula e assistencialista no trato com as comunidades.” (p. 137).


Referências Bibliográficas:
· ACCURSO, Anselmo da Silva. Capoeira – Um instrumento de Educação Popular. Produção Independente.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Síntese do texto “A prática da capoeira e sua contribuição à conscientização social”, de Anselmo da Silva Accurso.

Há muito tempo discutem-se questões relacionadas ao preconceito racial e à discriminação no Brasil, bem como fala-se da já instaurada superação desses problemas que assolam a nossa gente. São inegáveis as problemáticas referidas acima em nosso país ainda na atualidade. Por mais que se tente esconder e negar todo o distanciamento social entre as classes oprimidas (negros, índios, mulheres, homossexuais, etc.) e as opressoras, o preconceito continua a realizar seu impiedoso “papel social” (que serve somente ao opressor) na manutenção das muralhas criadas entre classes sociais distintas.

No texto referido, o qual originou essa síntese, o autor relata que por muito tempo o negro, de forma mais específica devido à relação do texto com a prática da Capoeira, “foi tratado como ‘coisa’” ( p. 115) e que, para isso, teve de ser distanciado de sua cultura, de suas crenças, “esvaziado”, como diz Accurso com base nas palavras de Ilíada Pires da Silva.

De um modo geral, a leitura do texto de Accurso nos provoca para a reflexão frente às questões ligadas aos problemas que acabam, infelizmente, por caracterizar nossa realidade social e econômica atualmente. Conectados diretamente com fatores historicamente constituídos, os problemas sociais de hoje se apresentam da mesma forma como nos tempos da escravidão, alterando-se apenas o sistema econômico vigente. Para o autor, os “valores” do colonialismo ainda imperam em nossa sociedade de modo que aquele que vende sua força de trabalho dificilmente tem condições suficientes para alcançar uma vida digna que o possibilite suprir suas necessidades básicas e, ao mesmo tempo, tornar-se livre. Há uma mínima possibilidade de ascensão social e, ainda, uma força opressora invisível (ideologia dominante) que pressiona intensamente as classes oprimidas e que nega a história (por deter controle e poder), diferentemente dos tempos do cativeiro no qual o “senhor” era conhecido. Assim, toda e qualquer classe oprimida, negada, marginalizada, sejam negros, índios, amarelos, alguns brancos, mulheres, homossexuais, entre outras, lutam pela liberdade e contra um mesmo opressor, mas não conseguem e talvez nem pensem numa possível articulação e união de suas forças por um mesmo ideal: LIBERDADE.

Faz-se necessário um resgate da história e da cultura de cada um desses grupos para que seja possível a reaproximação das massas com suas identidades culturais, situando-os enquanto agentes da história e não apenas como espectadores de um mundo criado por outros. Assim, entra em cena uma ferramenta ímpar para esse resgate cultural dos negros e dos oprimidos de um modo geral: a capoeira e suas origens, sendo encarada como luta de resistência de um povo contra a dominação, de um ideal de liberdade e, por tal, elemento subversivo da lógica dominante. De acordo com Accurso, na capoeira

“a humildade impera, colocando todos juntos, traço de uma cultura empalidecida, mas viva. O negro e o oprimido em geral vão se encontrando e se afirmando como pessoas, firmando-se como guerreiros contra o inimigo poderoso. Vão aprender a humildade, onde ninguém é mais que ninguém, sem curvar a cabeça para os opressores. Isto é transformar-se de espectador em sujeito da história.” (p. 120)

Aos negros, a prática da capoeira traz, de forma direta, a possibilidade de situar-se na história e descobrir-se enquanto negro, valorizando sua cultura e a sua força (ou de seus ancestrais), não temendo a discriminação devido à compreensão do seu real valor. Aos brancos, oprimidos ou opressores, fica o exemplo vigoroso de uma luta social capaz de resistir por longos períodos sem perder seu foco. Segue o autor dizendo: “Quando cada um entender a história de sua classe, ficará mais ampla a compreensão das relações sociais e mais difícil aceitar a desigualdade e a discriminação” (p. 122).

“A capoeira é imprescindível neste processo de conscientização e de identificação com a cultura negra e sua luta. Não podemos reduzi-la apenas a um desporto ou produto exótico de consumo, nem a técnica fria sem comprometimento com sua cultura de resistência. Sem dúvida, a capoeira tem mensagem, tem luta, tem arte suficiente para colaborar com um movimento comum em que todos rompam preconceitos e discriminações, formidáveis muralhas entre os homens, que tanto interessam aos que os subjugam.” (p. 126)

Referências Bibliográficas:

· ACCURSO, Anselmo da Silva. Capoeira – Um instrumento de Educação Popular. Produção Independente.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Lembre-se sempre...

Lute e não esqueça de VIVER A VIDA da maneira mais intensa possível antes de se entregar.
A intensidade dos diversos momentos de nossas vidas é ditada pelo nosso coração. Viva, se entregue à vida, aventure-se. Ninguém melhor do que você mesmo para definir o valor que sua vida merece. Ninguém melhor do que você para saber o que fazer do seu tempo.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Da Nossa Imortalidade

(Jefferson Castro)

Tenho visto circular uma mensagem do Senhor Juremir Machado da Silva pela Internet, principalmente em espaços onde há algum gremista. A mensagem deste diz:

"... Eu 'seco', mas também desejo que um dia o Grêmio alcance, a exemplo do Inter, um título mundial de clubes Fifa. Não agora. Mais tarde. Sou contra falsificações, cópias, clones e outras derivações. Eu teria mais apreço pelos gremistas se eles vissem o próprio clube como representante de uma 'alma gaudéria', não de uma 'alma castelhana' trazida de contrabando. O assunto, porém, é 'secar'. Trata-se de uma arte. Exige requinte, concentração, rituais e fé. Quero lembrar aos gremistas que, como diz o ditado, Santos fora de casa fazem milagres. Um desses milagres é o da multiplicação dos gols. Na verdade, eu preferia não 'secar'. Mas aprendi que nunca se deve dar mole para gremista. O menor sinal de COMPAIXÃO ou de TOLERÂNCIA leva sempre a arrependimento. O gremista básico é dominado por um sentimento esdrúxulo de superioridade. A prova disso é essa ilusão da 'imortalidade' que começa a ser tomada como uma verdade. Se o Grêmio é imortal, os Santos são eternos...".

Fico abismado com a falta de percepção deste homem ao escrever a passagem acima. Como "secador" que é, tenta de todas as formas descaracterizar a conquista tricolor de 1983. Cito falta de percepção pois, ao mesmo tempo em que ele afirma que o Grêmio não tem o Título do Mundial Interclubes da FIFA acaba, não sei por qual motivo, deixando escapar que é contra cópia, falsificação, clone, o que provavelmente vem a ser a idéia dele sobre o nosso mundial e, assim sendo, admitindo que temos o mesmo título que eles.

Outro fator que me tira o sossego (mas juro que é bem pouquinho), é quando ele fala sobre a idéia de "alma castelhana", tão citada entre a torcida gremista. Talvez lhe refresque a mente se eu lembrá-lo que, já que o assunto é secar, no dia 20/06/2007 era a torcida colorada quem figurava de "alma castelhana", esquecendo, como num passe de mágica, todas as vezes que o Inter lançou o tradicional "fogão 4 BOCAs". Chegava a soar engraçado eles falando sobre dançar tango e gritando aos 4 ventos "Soy del Boca" (QUE TORCIDA APAIXONADA!).

Parando um pouco com as "alfinetadas", prefiro falar um pouco sobre a "Alma Gaudéria", a qual ele também menciona e, pelo visto esquece que é a única virtude que o time dele nunca conseguiu ter. "Alma gaudéria", de Dinho, de Sandro Goiano, de Herrera e de todos aqueles gremistas que sempre fizeram do campo de futebol um espaço onde o adversário se sentia acoado frente a tanta raça. "Alma gaudéria" de Felipão, do Grêmio de 1995 e de todos os Grêmios até hoje, que lutam bravamente por cada centímetro quadrado dentro das linhas demarcatórias do tapete verde, nosso campo de batalha preferido. E não te engana amigo colorado: Não digo que somos a favor da violência no futebol. Apenas somos a favor das batalhas limpas que valem títulos e glórias, confiando em viradas extraordinárias onde a coragem e a entrega valem muito mais do que "3 balõeszinhos de ombro".

Indo além, afirmo que o "gremista básico" não existe. O que existe é gremista apaixonado por um clube de futebol que sempre mostra a que veio. Não ouse falar sobre nosso sentimento que, quer você tente entender, nunca conseguirá. Nosso sentimento não é de superioridade, mas de confiança, sempre! O decadente "campeão mundial" colorado ainda é novo demais em meio aos grandes do futebol para entender que "um caneco" ganho com o maior esforço tem sempre o dobro do valor.

Após tudo isso dito, creio que vocês, colorados, estarão aptos a entender (apenas entender) que "imortalidade" nada tem a ver com ganhar ou perder jogos ou campeonatos. Nossa Imortalidade está no espírito guerreiro de ser, na bravura de cada um que se dedica a torcer, vibrar, lutar por um ideal e, principalmente, no reconhecimento do esforço dedicado para se atingir um ideal. Assim sendo, Imortal não é quem nunca perde UMA BATALHA, mas QUEM NUNCA DEIXA UM AMOR MORRER!!

Reflexão sobre a “Crítica à Metodologia Expositiva”, de Celso Vasconcellos.

(Jefferson Castro)

Durante a leitura do texto de Vasconcellos, fica evidente a preocupação do autor para com o fato das dificuldades de superação da metodologia expositiva que, para ele, acabam engessando os alunos para tentativas inovadoras e eficientes. Ele aponta para vários aspectos legitimadores e sustentadores de métodos tradicionais nas escolas, tais como a pressão social (de pais, de alunos, dos professores e da própria escola), a avaliação (na medida em que cobra do aluno respostas mecânicas e prontas), imposição de tarefas a cumprir (necessidade de cumprir com os assuntos do programa curricular), baixo custo para a educação, comodidade do professor (pela facilidade de expor assuntos sem questionamentos) e a reprodução social (educação alienada; forma-se a mão de obra para o sistema vigente).

O texto nos convida a uma viagem histórica para que se compreenda a fundamentação e a formação dos preceitos que impregnam a educação.

Numa crítica mais direta, inúmeros fatores negativos são levantados pelo autor, pautados pela ineficácia, para alunos e professores, das simples exposições de temas e assuntos descontextualizados de uma realidade concreta. Para Vasconcellos, as metodologias do paradigma educacional tradicional são alienantes e trabalham com a memorização de respostas mecânicas, prontas para serem expelidas como reação a um determinado (e exato) estímulo: uma pergunta própria/adequada/direta, de preferência igual à de sempre. Não se pensa nem se reflete, não se permite ao educando a inquietação/indagação, tão valorizada por Paulo Freire, pois o que importa é a exposição do professor que está a frente da turma como representante de uma verdade acabada, que possui um fim em si.

Para finalizar, destaco um questionamento levantado por Vasconcellos em seu texto, no momento em que dispara contra a hiper-valorização que se dá ao cumprimento do currículo escolar (ressalto que o professor raramente participa da sua elaboração), e que é bastante pertinente e necessária a qualquer profissional da área da Educação: “a tarefa fundamental do educador é cumprir o programa ou propiciar a aprendizagem dos educandos?”. Dessa forma, provoco: onde está a prioridade da nossa educação?

Referências bibliográficas:
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Construção do conhecimento em sala de aula. 13ª Ed. – São Paulo; Libertad, 2002.